Artigo de opinião de Luísa Fonseca, Coordenadora do Núcleo de Estudos da Doença Vascular Cerebral da SPMI

Num ano que nos coloca tantos desafios, como o ano de 2020, é necessário mantermo-nos atentos e não descurarmos a rápida identificação e adequado tratamento dos doentes com AVC.  É essencial no dia mundial de AVC, relembrarmos a importância de instruir a população para os sinais de alarme.

Durante a fase inicial da pandemia, apesar de na maioria dos hospitais o circuito dos doentes da VVAVC não ter sofrido grandes alterações, mantendo-se assim ativo e em pleno funcionamento o tratamento de fase aguda. Verificou-se, no entanto, diminuição acentuada do número de doentes com AVC que recorreram ao hospital, o que levou a um decréscimo do número de doentes tratados quer com fibrinólise, quer com trombectomia mecânica. Não há explicação para esta diminuição do número de casos, o que é preocupante. Sabemos que a COVID-19 aumenta o risco de eventos trombóticos, o que deveria levar a um aumento do número de AVC. No entanto, num inquérito realizado a 32 hospitais portugueses, cerca de metade teve diminuição do número de doentes internados por AVC em cerca de 25-50%. Será que alguns doentes com sintomas menores, por receio de serem contaminados, não recorreram aos cuidados de saúde, ou porque os doentes estando em casa com menos stress e melhor adesão a terapêutica tiveram menos eventos?

Se é verdade que, neste momento, deve ser reforçada junto da população a importância do confinamento, é igualmente premente lembrar que o 112 deve ser ativado sempre que for identificado um dos sinais de alerta de AVC (face descaída, perda de força no braço/perna ou alteração da fala), de modo a permitir que os doentes sejam orientados para a unidade hospitalar que permite realizar o tratamento de fase aguda adequado, pois a rapidez de atuação é fundamental para que se possa evitar sequelas.

Além da procura de cuidados de saúde em casos de sinais e sintomas de alerta, deve ser reforçada a indicação, aos doentes, para manter a terapêutica habitual para controlo de fatores de risco vascular (anti-hipertensores, estatinas, antiagregantes plaquetários, anticoagulantes e terapêutica para diabetes). Não existe, atualmente, qualquer indicação para suspender nenhuma das terapêuticas previamente prescritas.

É também essencial garantir o acesso à reabilitação. No início da pandemia a reabilitação a estes doentes foi suspensa na sua quase totalidade. Segundo um inquérito divulgado pela Portugal AVC, 91% dos doentes com indicação para cuidados de reabilitação, entre 20 e 27 de abril, afirmaram ter sido obrigados a interromper os tratamentos ou não ter tido possibilidade de os iniciar. Houve doentes com enorme potencial de recuperação que infelizmente não tiveram acesso a esses cuidados.

Temos de garantir a assistência na sua plenitude a doentes com e sem COVID-19. É assim fundamental permitir que os serviços tenham capacidade para tratar os doentes infetados com SARS-CoV2 e os não infetados. Para que isso aconteça tem de haver um adequado investimento, quer em recursos humanos quer em meios materiais, para evitar o colapso do SNS perante este enorme desafio.

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