Luís Rodrigues é uma daquelas pessoas raras, com competências e paixões insuspeitas mas que são exercitadas quase no segredo das paredes. Nesta caso as da sua oficina.

O Luís é um escultor de sonhos, ou melhor, um construtor dá corpo de metal, frio e duro, a peças esculturais com que sonha.

Aos 46 anos, casado e pai de dois filhos, é assistente técnico no Município de Gavião, onde vive, mas cultiva a sua arte nos tempos livres, especialmente direccionada para a escultura em metal.

Nasceu em Lisboa mas «a minha família é de cá, toda da Degracia». «Não tenho qualquer formação em escultura, sou completamente autodidacta, mas aprendi a soldar com o meu pai, que era comerciante mas sabia soldar, e aprendi também na Escola Industrial, em Abrantes, onde estudei Mecânica»

«Gosto de fazer escultura, especialmente na parte anatómica, e também no surrealismo».

Claro que «tenho alguns trabalhos mais antigos, pássaros e outras coisas, mas este tipo de obra que faço agora é recente». E vemos, de olhos bem aberto de surpresa, as figuras de fantasia que constrói, sempre com os músculos bem delineados, como são os seus próprios, já que cultiva o corpo.

«Nunca expus nem nunca vendi. Isto não é um negócio, é mesmo um gosto, mas futuramente não sei; pode vir a ser» mais alguma coisa, mas essencialmente «é algo que gosto muito de fazer, mas também não vou encher a minha casa com esculturas, de modo que tenho de ver se consigo colocar os trabalhos noutro sítio e gostava de fazer uma exposição», confessa o Luís, que revela que «o senhor presidente (da Câmara) já me convidou e eu pedi-lhe para ser mais tarde porque tenho poucos trabalhos destes e cada um demora entre três a seis meses a ser executado, desde o desenho, à concepção e depois á execução. É tudo feito em chapa e barra de aço, é do tipo de um puzzle gigante, pecinha a pecinha e cada uma tem de encaixar no sítio certo». Os trabalhos de escultura «são todos em escala 1:1, ou seja à escala real, à dimensão humana»

 

«Sempre gostei de escultura»


Claro que para quem conhece o Luís, sabe dos seus gostos e que de há muito que a sua casa tem móveis feitos por si, para além de alguns recuperados e outros adaptados. Neste aspecto «faço um pouco de tudo».

A lareira é da sua autoria, feita a partir de uma turbina, este ano a árvores de Natal da sua casa é uma pá, em madeira, da hélice de um avião, no caso um velho Spitfire. A mesa da casa de jantar foi ele quem a construiu em ferro e madeira, mas o candeeiro é uma construção feita a partir das velhas janelas da casa da avó da esposa.

A credência do hall do rés-do-chão é outra construção sua, tal como a iluminação das escadas do 1º andar surge de uma velha janela que serve como candeeiro. Ali ao pé, a cadeira de barbeiro que arranjou ainda surpreende quem entra.

A mesa da cozinha foi construída por si a partir de umas vigas de madeira que «eram de um barracão e iam ser queimadas», e a bancada do lava-loiça é também ela madeira, mas tratada com uma técnica japonesa, o “shou sugi ban”, que impermeabiliza a madeira através da carbonização da primeira camada do material, que depois é tratada com óleo de linhaça, «por isso no Japão há casas em madeira com 500 anos», lembra o Luís, que aplicou a mesma técnica num móvel dos anos 60 que tem na sala. Porque gosta da cor, escura, mas sem tinta e que fica com um aspecto aveludado e que deixa continuar a ver o veio da madeira.

O gostos deste artista e escultor são eclécticos e assume que «gosto de arquitectura, gosto de escultura, gosto de decoração», «sou apaixonado pela época do Renascimento… e também um pouco pelo Gótico».

Pode parecer estranho mas «gosto de coisas antigas e também de coisas muito modernas, não tenho o meio-termo». E esclarece que gosta de arquitectura moderna mas «não é dos cubos que se vêem por aí, é mais arrojado que isso. Por exemplo gosto do MAAT, gosto muito desse tipo de arquitectura».

Na escultura, a anatomia humana mas também um pouco de ficção científica marcam as preferências e o caminho do Luís, que assume que «aprendi nos livros com grandes ilustradores como eram Brown Orgatish e George Bridgman», depois «fui fazendo experiências e cheguei aqui».

O Luís não esconde que a esposa, «a Inês apoia-me muito, porque gosta e porque sabe que eu gosto», e «os meus filhos, o Miguel e o Bruno, também me apoiam bastante» e «até já manifestam vontade de aprender».

«Tenho um projecto em mente que provavelmente demorará um ano a fazer». Sem ter ainda a certeza se avança, confidencia que «gostaria de fazer um Cristo à escala real». E até «teria uma sala para o por, mas se o fizesse, provavelmente seria para vender», adianta o Luís que adianta mesmo que «a concepção já está feita» e «gostava muito de executar, até porque gosto muito de Cristos». «Esse é o maior projecto que tenho», de resto «gostava de expor», até porque «gostava de mostrar», de resto «não penso muito muito sobre o futuro disto». Mas que a exposição está garantida, isso está.

Importa ainda perceber que «o trabalho que faço é, basicamente, todo manual e com ferramentas antigas, e até a máquina de soldar é antiga. De resto uso duas ou três rebarbadoras, forja, bigorna e martelo».

Há pouco, o Luís dedicou algumas manhãs dos seus fins-de-semana a fazer rosas de ferro. E que rosas!

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