Artigo de opinião de Santana-Maia Leonardo

 

Quando se vive num país onde todas as instituições têm telhados de vidro, é natural que se prendam e persigam aqueles que atiram pedras. Toda a gente com poder em Portugal, seja de que partido for ou de que clube for, treme só de pensar que alguém vai puxar o fio à meada. Por isso, criaram um muro legal para travar este tipo de investigações. Qualquer meio eficaz para investigar a corrupção, em território português, é inconstitucional.

E não há um único português, por mais ingénuo que finja ser, que não saiba o que a casa gasta. Aliás, se dissermos a um português que o presidente do seu clube ou da sua câmara cometeu actos de corrupção, não há um único que defenda a honra do seu presidente, indignando-se com a acusação e defendendo a sua honorabilidade. Pelo contrário, todos dão por assente que a acusação é verdadeira, usando como defesa o argumento de que os outros ainda são piores. A Hipocrisia é, efectivamente, a instituição nacional por excelência da qual dependem todas as outras.

Toda a gente reconhece que o direito à privacidade é um bem sagrado que importa proteger nas sociedades abertas e que a violação da privacidade seja um crime. Agora também é verdade que o tráfico de menores e de seres humanos, as organizações mafiosas e a alta corrupção ao nível do Estado são crimes muito mais graves.

E quando é o próprio Estado e as suas principais instituições que estão capturados por organizações criminosas e associações de malfeitores, não há outra forma de combater este tipo de criminalidade sem sacrificar alguns direitos. Até porque é manifesto que a legislação portuguesa, designadamente, contra a corrupção, está ferida de morte porque foi elaborada e aprovada precisamente por aqueles que ela devia perseguir. Ninguém pode esperar que, na gruta de Ali Babá e dos 40 ladrões, se aprovem leis para prender os ladrões...

Portugal é um dos países mais pequenos do mundo uma vez que está reduzido a Lisboa onde tudo se concentra e se centra. Políticos, banqueiros, presidentes disto e daquilo, grandes sociedades de advogados, tv, revistas e jornais, etc etc frequentam todos o mesmo reduzido espaço público, criando naturalmente laços de amizade, cumplicidades, etc. etc.

Se se puxar o fio à meada dos e-mails do Benfica, da Isabel dos Santos, de Sócrates, da CGD, do BPN ou de Ricardo Salgado, vem tudo atrás, porque está tudo intimamente e naturalmente relacionado. E é, por isso, que, quando não pode mesmo deixar de ser, a justiça portuguesa não tem outro remédio a não ser puxar um bocadinho do fio e com muito cuidadinho, como foi o caso do E-Toupeira, para não correr o risco de fazer desmoronar o regime e as principais instituições que o suportam.

Santa Hipocrisia, velai por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte, amén!

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